Pense por você mesmo

questão de ordem

questione a autoridade

 

 

em mulher não se bate

nem se apanha

 

 

se deve temer ou obedecer

por ser autoridade

ou é sempre errado

por ser autoridade

 

 

quando que alguém fala:

“você só quer fazer da sua maneira”

eu ouço:

“você nunca faz da minha maneira”

 

 

Você está certo por que está certo

sem argumentos, derrotas ou vitórias?

 

 

Pense por você mesmo

questione a autoridade

QUESTIONE-SE

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Pedrinho 2001-2014

Pedrinho 2001-2014

deitado ao lado o cão
sob seu ronco
a tarde tranqüila


O SUICIDA

         A neblina se impôs ao entardecer … postes esparsos formavam poças de luz. Vez por outra passava um carro veloz. Revelava manchas humanas caminhando … ouvia-se um latido – mistura de gemido e espasmos. Onde? possivelmente de algum ponto do jardim na minha frente. Cansado, fora um dia muito quente. Esperava somente um banho frio. O som vinha de encontro ao meu rosto. Um bafo seco e nauseante que não causava repulsa … longe disto. Ele era aconchegante. Bom seria prendê-lo junto ao rosto até fechar a porta de casa. E depois? empurrava-me para a sua origem … um espaço cada vez maior. Meus passos eram dele me guiando. Este cachorro que se colocava entre meu corpo e meu objetivo. Mais nítido o latido, firme e crescendo. À minha direita, então, atravessei a rua. O animal devia ser grande para conter tanta força … aos poucos, ficava mais fácil imaginá-lo. Há algo nesta recordação que ainda estranho … algo naquele som me perturbava. E isto me impedia de reconstituir o seu dono. Visualizei-o meio embaçado; o que via … era uma desproporção das partes. Por fim, desisti deste jogo. Somente fazia aumentar a ansiedade de uma resposta. E eu nem sabia, ao certo, qual era a pergunta. Duas empregadas passaram absortas em suas conversas. Apesar de caminharem lado a lado, cada qual falava sobre um assunto. Como podiam não ouvir o latido? … havia nele um desespero que cresce se alimentando da carne … Mais próximo: o corpo, o desespero. De repente, desapareceu o latido, minha ansiedade. Mas não o desespero. Na minha frente um homem de contornos indefinidos. Apoiado em um muro apontava um objeto contra o rosto. Um brilho, partindo do objeto, me deixou ver o revólver. Ou pistola. Confesso me esquecer da diferença … Onde estava o cão que me trouxera? … “Você já matou o cão?”. Era alto e estreito, seus cabelos refletiam faróis. Estava intrigado … “Que cão?”. Relaxara o braço armado. O dele, eu supunha. Mas ele me disse que já morrera há três anos, “não devia ter deixado de me esperar”. Frases truncadas, mas não emocionadas. “Tínhamos combinado nos acompanhar sempre … dois solitários que só de saber que o outro estava … dois velhos, dois estranhos para as pessoas …” Mas eu tinha ouvido um latido partindo daqui. A ideia o sacudira. “Aqui não tem nenhum cachorro … deixe-me … não quero ninguém neste momento em …” Tenta me empurra para longe. Porém sem a força necessária. Se não havia um cachorro, de onde … isso arranhava minha mente. Depois parou. Queria lhe dizer algo. “Que seja rápido!”. Realmente não precisaria ser longo. “Aponte um pouco acima do ouvido. É mais fácil e seguro.” Depois nada. Segui meu caminho em direção ao banho frio. Ouvi um “obrigado” vacilante e um latido … Um estampido e o som de um cérebro se derramando em um muro.

   (para Pedrinho)


SÉRIE CARTAZES

SÉRIE CARTAZES


PASSEIO PELA ORLA

rápida

a mão abre a porta

do carro

no meio da rua

o sinal piscando

uma garrafa voa

e fica dançando

branca e azul no asfalto

pula por entre pneus

e, finalmente, espalha

uma mancha alaranjada

e fétida

como os miolos

do dono

da mão


SÉRIE CARTAZES

SÉRIE CARTAZES


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